ANDEM COMO FILHOS DA LUZ
Texto bíblico: Efésios 5.1–21
Tema: A nova identidade em Cristo produz uma nova
maneira de viver.
Versículo-chave: Efésios 5.8
“Porque, noutro tempo, éreis trevas, porém, agora,
sois luz no Senhor; andai como filhos da luz.”
IDEIA CENTRAL
A santidade cristã não é uma tentativa de
conquistar uma nova identidade diante de Deus; é a manifestação prática da
identidade que recebemos em Cristo.
INTRODUÇÃO — PRIMEIRO DEUS MUDA QUEM SOMOS;
DEPOIS, MUDA COMO VIVEMOS
Existe uma estrutura muito importante em Efésios. Nos
capítulos 1–3, Paulo praticamente não manda a igreja fazer nada. Ele anuncia
aquilo que Deus fez:
·
Deus nos
escolheu.
·
Deus nos
adotou.
·
Deus nos
redimiu.
·
Deus nos
deu vid.
·
Deus nos
reconciliou.
·
Deus nos
fez seu povo.
Então chega Efésios 4.1: “Rogo-vos, pois...
que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados.”
A palavra “pois” é fundamental. Paulo está
dizendo: Por causa de tudo aquilo que Deus fez por vocês, agora vivam de
maneira correspondente.
Isso nos protege de dois erros.
1. O primeiro é o legalismo: “Eu
preciso viver corretamente para que Deus me aceite.” Ao contrário disso, o evangelho
diz: “Em Cristo, Deus me alcançou pela graça; por isso agora desejo viver
para agradá-lo.”
2. Mas existe outro erro: achar que, porque
somos salvos pela graça, nossa maneira de viver deixou de importar.Paulo
também rejeita isso.
A graça que perdoa é também a graça que transforma.
Por isso Efésios 5 não é
simplesmente uma lista de regras. É a descrição da vida daqueles que receberam
uma nova identidade.
1. “SEDE IMITADORES DE DEUS” — A ÉTICA DOS
FILHOS
Efésios 5.1–2: “Sede, pois, imitadores de Deus,
como filhos amados; e andai em amor...”
Essa talvez seja uma das ordens mais
extraordinárias da carta: “Sede imitadores de Deus.”
Como seres humanos poderiam imitar Deus? Certamente
Paulo não está dizendo que podemos imitar os atributos que pertencem
exclusivamente a Deus. Não podemos ser onipotentes, oniscientes, onipresentes,
etc.
Mas o contexto mostra o que Paulo quer dizer. Voltem
um versículo, Efésios 4.32: “...perdoando-vos uns aos outros, como também
Deus, em Cristo, vos perdoou.”
Então: Deus perdoou → perdoem.
E agora: Deus amou → amem.
Percebam novamente a lógica do evangelho. Paulo diz:
“...como filhos amados.” Primeiro vem a filiação, depois
vem a imitação.
Isso é profundamente importante.
Uma criança frequentemente imita seus pais porque
existe uma relação entre eles. Da mesma forma, a vida cristã é a manifestação
do caráter do Pai na vida de seus filhos.
Por isso Jesus também disse: “Sede vós
perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.”
Mateus 5.48
A pergunta cristã deixa de ser apenas: “Posso
fazer isso?” E passa a ser: “Isso reflete o caráter do meu Pai?”
2. CRISTO DEFINE O QUE SIGNIFICA AMAR
“...e andai em amor, como também Cristo nos amou e
se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma
suave.”
Aqui existe uma linguagem claramente sacrificial. Paulo
está evocando a linguagem das ofertas do Antigo Testamento.
Cristo nos amou → entregou-se → ofereceu-se a
Deus. Portanto, o amor cristão não é definido primeiramente pela emoção. É
definido pela cruz. A cruz redefine o amor.
Em nossa cultura, amor frequentemente significa: “Eu gosto.”, “Eu sinto.”, “Essa pessoa me faz
bem.”
Mas o amor de Cristo é marcado pela entrega. Cristo
amou quando isso lhe custou. Por isso a vida cristã não pode ser construída
apenas sobre sentimentos.
Quando perguntamos: “Como devo tratar meu irmão?”
Paulo nos conduz até a cruz. Como Cristo nos tratou?
1. Com graça.
2. Com misericórdia.
3. Com paciência.
4. Com entrega.
A ética cristã nasce da cruz.
3. POR QUE PAULO PASSA DO AMOR PARA A
IMORALIDADE?
Efésios 5.3–7
Logo depois de falar do amor de Cristo, Paulo fala
de:
- imoralidade sexual;
- impureza;
- cobiça;
- palavras indecentes;
- conversas impróprias.
Pode parecer uma mudança brusca, mas não é. Paulo
está mostrando que existe uma diferença entre amor e desejo egoísta.
Cristo diz: “Eu me entrego pelo outro.”; a
cobiça diz: “Eu quero o outro para mim.”
Essa diferença é fundamental. O amor cristão é
doação.
A cobiça transforma pessoas e coisas em
instrumentos para satisfazer nossos desejos. Por isso Paulo chega a dizer no
verso 5 que o avarento, ou cobiçoso, é idólatra. Por quê?
Porque idolatria não é apenas ajoelhar-se diante de
uma imagem. Idolatria acontece quando alguma coisa criada ocupa em nosso
coração o lugar que pertence ao Criador.
Pode ser dinheiro, prazer, status, poder, aprovação,
sexualidade, conforto, etc.
Quando dizemos: “Sem isso eu não consigo ser
feliz”, precisamos examinar o coração. Talvez aquilo esteja começando a
ocupar um lugar que pertence somente a Deus.
4. “ÉREIS TREVAS; AGORA SOIS LUZ”
Efésios 5.8–14: “Porque, noutro tempo, éreis trevas, porém, agora,
sois luz no Senhor.”
Chegamos ao centro teológico do texto. Observem
cuidadosamente: o texto não diz “estavam nas trevas” mas “éreis
trevas”, bem como não diz “agora encontraram a luz”, mas “agora
sois luz”.
Isso fala de identidade.
Mas existe uma expressão decisiva: “no Senhor.”
Nós não somos luz autonomamente. Não produzimos
nossa própria luz. Somos luz porque estamos unidos a Cristo.
Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo.” João
8.12, Portanto, nossa condição de filhos da luz é derivada de nossa
relação com Cristo.
Isso combina perfeitamente com toda a teologia de
Efésios. A expressão “em Cristo”, ou equivalentes, aparece repetidamente
na carta.
Nossa eleição é em Cristo, nossa redenção é em
Cristo, nossa reconciliação acontece em Cristo, nossa nova vida está em Cristo.
E agora somos: “luz no Senhor.”
Aqui está a base da santificação. Nós não vivemos como filhos da luz para nos
tornarmos luz. Vivemos como filhos da luz porque fomos feitos luz no
Senhor. Ou seja: IDENTIDADE → CONDUTA.
5. A LUZ PRODUZ FRUTO
“porque o fruto da luz consiste em toda bondade, e
justiça, e verdade.”
Uma árvore revela sua natureza através do fruto. Da
mesma forma, a nova vida deve produzir evidências.
Paulo apresenta três:
1.
Bondade: O caráter de Deus aparecendo na maneira como
tratamos pessoas.
2.
Justiça: Uma vida alinhada à vontade de Deus.
3.
Verdade: Uma vida sem duplicidade, mentira ou
aparência.
Isso significa que santificação vai muito mais além
do que “deixar de fazer coisas erradas.” Santificação é começar a
produzir aquilo que é próprio da nova vida.
·
Não basta
retirar a mentira. É preciso falar a verdade.
·
Não basta
abandonar o roubo. É preciso trabalhar e repartir.
·
Não basta
parar de falar palavras destrutivas. É preciso começar a falar palavras que
edificam.
A santificação bíblica não é apenas subtração.
É também transformação.
6. A LUZ REVELA
Efésios 5.11–14: “E não sejais cúmplices nas obras
infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as.” “Mas todas as coisas,
quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas...”
Uma das propriedades da luz é revelar aquilo que
estava escondido.
Imagine um quarto completamente escuro. Você pode
entrar e achar que está tudo limpo. Então alguém abre a janela, a luz entra e,
de repente, aparecem a poeira, as manchas e aquilo que estava escondido.
A luz não produziu a sujeira. Apenas revelou o
que já estava ali.
Algo semelhante acontece quando Deus trabalha em
nós. Quanto mais nos aproximamos da luz de Cristo, mais percebemos áreas que
ainda precisam ser transformadas.
Isso explica uma experiência interessante da
maturidade cristã. Às vezes, quanto mais crescemos espiritualmente, mais
percebemos nossas próprias fraquezas.
Não necessariamente porque estamos piores, mas
porque existe mais luz. Por isso a resposta correta quando Deus revela
algo em nós não é fugir da luz. É permitir que Ele transforme aquilo que foi
revelado.
7. “VEDE PRUDENTEMENTE COMO ANDAIS”
Efésios 5.15–17: “Portanto, vede prudentemente como andais, não
como néscios, e sim como sábios.”
Sabedoria, na Bíblia, não é simplesmente possuir
muita informação. Uma pessoa pode conhecer muita Bíblia e ainda tomar decisões
insensatas.
Sabedoria é aprender a enxergar a vida à luz de
Deus. Por isso Paulo diz: “remindo o tempo, porque os dias são maus.”
A palavra traduzida por “tempo” aqui é kairós,
indicando a oportunidade, o tempo que se apresenta diante de nós.
A ideia é: aproveitem bem as oportunidades que
Deus lhes concede. Por quê? “porque os dias são maus.” O cristão não
pode viver no piloto automático. Precisamos discernir.
Por isso o verso 17 diz: “procurai
compreender qual a vontade do Senhor.”
Existe uma diferença entre perguntar: “O que eu
quero fazer?” e perguntar: “O que agrada ao Senhor?”. Essa é uma das
marcas da maturidade.
8. “ENCHEI-VOS DO ESPÍRITO”
Efésios 5.18–21 - “E não vos embriagueis com vinho, no qual há
dissolução, mas enchei-vos do Espírito.”
Existe um contraste. A embriaguez coloca a pessoa
sob determinada influência.
Paulo diz: não sejam governados pelo vinho;
sejam governados pelo Espírito. Mas existe ainda algo importante na
construção da expressão “enchei-vos”.
A ordem aponta para uma experiência contínua. Não é
simplesmente: “Um dia vocês foram cheios do Espírito e acabou.” A ideia
é: continuem sendo cheios do Espírito.
Além disso, a ordem é dirigida à comunidade. Portanto,
a plenitude do Espírito não é apresentada apenas como uma experiência
individual extraordinária. É algo que deve caracterizar a vida da igreja.
MAS COMO É UMA IGREJA CHEIA DO ESPÍRITO? O
próprio texto responde.
1. É UMA IGREJA QUE ADORA
“falando entre vós com salmos, entoando e louvando
de coração ao Senhor...”
A plenitude do Espírito produz adoração centrada em
Deus.
2. É UMA IGREJA AGRADECIDA
“dando sempre graças por tudo a nosso Deus e
Pai...”
A murmuração constante e a gratidão dificilmente
conseguem governar o mesmo coração ao mesmo tempo.
3. É UMA IGREJA EM QUE OS RELACIONAMENTOS SÃO
TRANSFORMADOS
“sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.”
Isso é especialmente importante porque o próximo
assunto de Paulo será:
marido e esposa, pais e filhos, servos e senhores. Ou
seja: a plenitude do Espírito aparece nos relacionamentos.
Não podemos separar espiritualidade da maneira como
tratamos as pessoas. Logo, ser cheio do Espírito influencia diretamente:
·
Como você
fala?
·
Como você
agradece?
·
Como você
trata os irmãos?
·
Como você
vive dentro de casa?
Porque, para Paulo, a espiritualidade verdadeira
produz consequências concretas.
CONCLUSÃO — O EVANGELHO MUDA NOSSO “ANDAR”
Existe uma palavra que percorre toda essa parte de
Efésios: ANDAR.
·
Efésios
4.1: “andeis de modo digno...”
·
Efésios
4.17: “não mais andeis como também andam os gentios...”
·
Efésios
5.2: “andai em amor...”
·
Efésios
5.8: “andai como filhos da luz...”
·
Efésios 5.15:
“vede prudentemente como andais...”
Paulo está descrevendo toda a caminhada cristã.
Podemos resumir assim:
·
ANDEM
DIGNAMENTE.
·
ANDEM EM
AMOR.
·
ANDEM NA
LUZ.
·
ANDEM COM
SABEDORIA.
Mas existe algo ainda mais profundo por trás de
tudo isso.
Paulo está ensinando: “Deus mudou quem vocês
são; agora vivam de acordo com aquilo que vocês se tornaram em Cristo.”
PARA REFLEXÃO
1. Existe alguma área da minha vida que ainda estou
tentando manter longe da luz de Cristo?
2. Minhas decisões são guiadas apenas pelo que eu
quero ou também pela pergunta: “O que agrada ao Senhor?”
3. O fruto da luz — bondade, justiça e verdade —
pode ser percebido em minha maneira de viver?
4. Se a plenitude do Espírito aparece também em
nossos relacionamentos, o que meus relacionamentos revelam sobre minha vida
espiritual?
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