O SACRIFÍCIO QUE ERA MEU, O CORDEIRO QUE DEUS PROVEU
O SACRIFÍCIO QUE
ERA MEU, O CORDEIRO QUE DEUS PROVEU
Texto bíblico: Gênesis 22.7-13
⁷ Então falou
Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho!
E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o
holocausto? ⁸ E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o
holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos. ⁹ E chegaram ao lugar que
Deus lhe dissera, e edificou Abraão ali um altar e pôs em ordem a lenha, e
amarrou a Isaque seu filho, e deitou-o sobre o altar em cima da lenha. ¹⁰ E
estendeu Abraão a sua mão, e tomou o cutelo para imolar o seu filho; ¹¹ Mas o
anjo do Senhor lhe bradou desde os céus, e disse: Abraão, Abraão! E ele disse:
Eis-me aqui. ¹² Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe
faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho,
o teu único filho. ¹³ Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um
carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e
tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho.
INTRODUÇÃO
Existem perguntas que mudam uma
história. Essa história é bem conhecida nossa. Deus dá a Abraão a ordem mais devastadora
de sua vida: oferecer seu filho Isaque em holocausto. Quando estavam próximos do
local onde aconteceria o ato, Isaque faz uma pergunta. Apenas uma pergunta: “e
o cordeiro do holocausto”?
Quando pensamos nessa história, a
nossa imaginação muitas vezes é moldada por ilustrações infantis: um garotinho de
cinco ou seis anos, andando de mãos dadas com o pai, um senhor idoso, sem
entender absolutamente nada do que estava acontecendo. Mas a geografia bíblica
e o texto sagrado quebram essa ilusão. Isaque não era um menino inocente alheio
à realidade. Ele era um jovem forte — forte o suficiente para carregar nas
costas a lenha que subiria o monte. As tradição judaica diz que ele provavelmente
tinha entre 25 e 37 anos. Mas mais do que força física, Isaque sabia muito bem
o que era um holocausto.
Isaque conhecia a liturgia da
adoração da sua casa. Ele já tinha visto o sangue correr, o fogo arder e o
aroma do sacrifício subir aos céus muitas vezes. Por isso, no meio do caminho,
um silêncio constrangedor é quebrado por uma pergunta teológica e terrivelmente
lógica: 'Meu pai... eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o
holocausto?'. Havia altar, fogo e lenha, mas não havia quem a vítima que seria entregue
inteira no altar, como expressão de rendição total e absoluta à vontade de Deus.
É nesse momento, então, que
Abraão responde com uma das declarações proféticas mais extraordinárias de toda
a Escritura: “Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho”.
Essa resposta ecoou por toda a
Bíblia, reverberando em João Batista, às margens do Jordão, quando Diz: “"Eis
o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." (Jo 1.29), e
chegando até nós, nesta noite, diante da mesa da Ceia do Senhor.
Aqui, diante deste memorial,
somos confrontados e consolados por esta verdade. Vamos examinar hoje, passo a
passo, como Deus transforma o nosso merecimento de morte em uma promessa de
provisão, revelando um substituto no Moriá que aponta diretamente para o Cristo
do Calvário.
I. O ALTAR REVELA AQUILO QUE
REALMENTE MERECÍAMOS
"Eis o fogo e a
lenha..." (vs 7)
Isaque percebe que há tudo para o
sacrifício, menos a vítima. Já Abraão sabe algo que Isaque ainda não entende. Logo,
a resposta de Abraão não é apenas evasiva. É protetiva. Isaque olha para os elementos
– fogo e lenha – e compreende a mecânica do julgamento. O altar exige uma vida.
Isaque ainda não sabia, mas naquele
monte, o nome que estava escrito no topo da lenha era o seu próprio. Ele era o
único candidato disponível para o sacrifício.
E aqui aparece um retrato da nossa condição.
A Bíblia ensina que:
·
o salário do pecado é a morte (Rm 6.23);
·
todos pecaram (Rm 3.23)
·
todos estávamos mortos em nossos pecados (Ef
2.1).
O homem moderno acha que o pecado
é apenas um deslize moral, mas a Bíblia mostra que o pecado é uma dívida
jurídica de morte contra um Deus infinitamente Santo. Como diz Hebreus 9:22,
sem derramamento de sangue não há remissão.
Isso não é falta de amor, da
parte de Deus, nem crueldade, jamais. Imagine que um réu se vire para o juiz,
no dia do julgamento e diga “meritíssimo, sei que o senhor é um homem que
muito ama, por isso ignore meus crimes e me liberte”. Se o juiz ignorar o
crime, ele deixa de ser justo e torna-se cúmplice. O altar de Moriá é o
tribunal de Deus na história. A justiça divina não pode simplesmente
"fazer vista grossa" para a nossa rebeldia; a conta do pecado precisa
ser paga.
Meus irmãos, nós vivemos em uma
era de anestesia espiritual. O homem moderno não se sente mais pecador; ele se
sente uma vítima das circunstâncias. Queremos os benefícios da salvação sem o
desconforto do arrependimento. Queremos o Cristo que nos abraça, mas rejeitamos
o fato de que fomos nós que cravamos os pregos em Suas mãos.
Olhe para o pão e para o cálice.
Eles não são símbolos de uma celebração leve. O pão partido aponta para um
corpo esmagado pela justiça de Deus. O vinho aponta para o sangue derramado
para aplacar a ira santa. Quando você segurar o cálice hoje, lembre-se: o altar
revela que a vítima de direito era eu, era você. Aquele lugar de morte era meu,
era seu.
II. DEUS NÃO PEDIU QUE ABRAÃO
ENCONTRASSE UM CORDEIRO; DEUS PROMETEU QUE ELE MESMO O PROVIDENCIARIA
"Deus proverá para si
o cordeiro..." (vs 8)
Essa frase é extraordinária.
Abraão não diz a Isaque:
"vamos procurar um animal" ou "espero que apareça algo".
Ele arranca os olhos das circunstâncias e os coloca na Soberania Divina. Se o
homem dependesse de encontrar o seu próprio escape da condenação, nós
estaríamos eternamente perdidos. No Monte Moriá, Abraão ensina que a nossa
esperança não reside na nossa capacidade de procurar, mas na fidelidade de Deus
em prover.
A salvação nunca foi o homem
subindo até Deus; sempre foi Deus descendo até o homem.
·
No Éden, quando pecamos, nós nos escondemos nas
árvores; foi Deus quem veio correndo e clamou: "Adão, onde estás?".
·
Nós costuramos folhas de figueira inúteis; foi
Deus quem sacrificou o primeiro animal inocente para nos vestir com peles.
·
Nós cravamos a humanidade na condenação; foi
Deus quem, por iniciativa própria, enviou Seu Filho ao mundo (Rm 5:8).Nós
fornecemos o pecado; Deus providenciou o Cordeiro.
A iniciativa sempre foi divina. Romanos
5.8 diz que “Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu
por nós, sendo nós ainda pecadores”.
É Deus quem provê o Cordeiro. No
hebraico, o verbo usado para "prover" possui a mesma raiz do verbo
"ver". Daí, o nome Yahweh Jireh significa literalmente “O
Senhor Verá”. Sabe o que isso significa? Que a provisão divina é fruto da
visão divina. Porque Deus enxerga o amanhã, Ele providencia hoje o que nos
faltará amanhã.
O nome revelado ali é Yahweh
Jireh — "O Senhor Verá". Deus não reage à nossa crise; Ele a
antecede. Enquanto Abraão e Isaque subiam a montanha, carregando o peso da
angústia, Deus já havia preparado o substituto. O animal já estava a caminho
antes mesmo de o cutelo ser levantado.
Antes que você cometesse o seu
primeiro pecado, Deus já havia arquitetado o plano da sua redenção. Cristo não
foi um "Plano B" ou uma medida de emergência adotada após o fracasso
humano. Ele é o Cordeiro já conhecido e destinado antes da fundação do mundo
(1Pe 1:19-20). A provisão de Deus sempre chega primeiro aos Seus planos do que
aos nossos olhos.
III. O SUBSTITUTO MORREU NO
LUGAR DO FILHO
Então levantou Abraão os
seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres
(vs 13).
E o texto diz: "...e
ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho."
Essa pequena expressão resume
todo o Evangelho. Em lugar de. Essa é a linguagem da expiação
substitutiva.
Quando o anjo segura a mão de
Abraão, o veredicto de morte sobre Isaque não é cancelado; ele é transferido. O
texto é cirúrgico: “ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho”.
Meus irmãos, a nossa fé se sustenta sobre esta pequena expressão: em lugar
de. Isso é substituição pura. Jesus não morreu no Calvário para nos dar um
bom exemplo de moralidade ou para ser um mártir da história. Ele morreu em
nosso lugar. A cruz era o nosso altar. O prego era para as nossas mãos. A lança
era para o nosso peito.
Olhe para os detalhes do texto
sagrado. Abraão olha para trás e vê um carneiro preso pelos chifres em um
arbusto de espinhos. Não sabemos por que Deus permitiu que o carneiro ficasse
preso justamente pelos chifres, mas é interessante notar, porém, que essa
imagem nos lembra outro Substituto cuja cabeça seria cercada de espinhos.
Isaías havia anunciado: "O
castigo que nos trouxe a paz estava sobre Ele." (Is 53.5). Paulo
declara: "Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por
nós." (2Co 5.21). Pedro diz: "Cristo morreu pelos
pecados, o justo pelos injustos." (1Pe 3.18).
Toda a Bíblia converge para essa
verdade. Há uma "santa troca" no tribunal de Deus: Cristo
recebe a nossa condenação e nós recebemos a Sua justiça.
Gênesis 22 nos apresenta uma
matemática que não fecha: havia um altar e um filho, mas faltava o cordeiro. No
Moriá, Deus providencia um carneiro temporário para poupar Isaque. Mas a
pergunta de Isaque — “onde está o cordeiro?” — continuou ecoando na história
por dois milênios. Cada sacrifício no templo era apenas um lembrete de que o
verdadeiro Cordeiro ainda não havia chegado. Até que, no topo de outra colina,
não no Moriá, mas no Calvário, o próprio Deus deita o Seu único Filho sobre a
madeira da cruz. Mas ali, nenhum anjo bradou do céu para segurar o martelo.
Ali, o corte foi profundo. Ali, o Substituto morreu de verdade para que os
filhos pudessem viver.
IV. O CARNEIRO DE MORIÁ
APONTAVA PARA CRISTO
O carneiro preso no Moriá salvou
a vida de Isaque naquele dia, mas aquele animal não podia mudar o coração de
Isaque. No ano seguinte, a família de Abraão precisaria de outro animal, e no
outro ano também. Durante séculos, milhares de cordeiros sangraram nos altares
de Israel. Por quê? Porque, como afirma Hebreus 10:4, é impossível que o
sangue de touros e bodes remova pecados. Todo aquele sangue derramado
no passado não era a solução definitiva; era apenas uma sombra projetada na
história, apontando para o único sacrifício perfeito que haveria de vir. Jesus
não cobre pecados. Jesus remove pecados.
É por isso que, quando João
Batista aponta para Jesus, ele altera a gramática da adoração. Ele não diz
"Eis mais um cordeiro", mas sim: "Eis O Cordeiro de Deus"
(Jo 1:29). O artigo definido "O" muda tudo. Significa que a busca
acabou. Significa que o sacrifício definitivo, perfeito e plenamente suficiente
chegou à história humana.
Meus irmãos, o erro de muitos
crentes hoje é continuar tentando oferecer a Deus o que Cristo já ofereceu na
cruz. Quantas pessoas ainda vivem tentando comprar o favor de Deus? Elas acham
que Deus as aceitará por causa de seu ativismo religioso, de suas boas obras,
de seus sacrifícios pessoais ou de seus sofrimentos. Tentar pagar pela salvação
com o seu esforço é insultar a cruz de Cristo. Deus já providenciou o Cordeiro
perfeito! Nós não acrescentamos uma única gota de suor ou sangue ao sacrifício
de Jesus. A salvação não é conquistada por mérito; ela é recebida estritamente
pela fé.
Quem realmente compreende o preço
pago na cruz nunca mais trata a graça como algo comum. A nossa salvação não foi
de graça; ela custou a vida do Filho de Deus. E um sacrifício total exige uma
resposta total. Cristo não entregou apenas uma porcentagem de si no Calvário;
Ele se deu por inteiro. Por isso, ao participarmos da Ceia nesta noite, nós
somos chamados a responder da mesma maneira. Não venha à mesa oferecer a Deus
uma vida morna ou uma devoção pela metade. O Cordeiro se deu por você por
inteiro; entregue-se a Ele por inteiro também.
CONCLUSÃO
Naquela manhã distante, Isaque
quebrou o silêncio com uma pergunta: "Onde está o cordeiro?". Abraão,
erguendo os olhos da fé, respondeu: "Deus proverá". Séculos mais
tarde, João Batista apontou para as margens do Jordão e respondeu definitivamente:
"Eis o Cordeiro de Deus".
Hoje, nesta noite, nós olhamos
para a mesa do Senhor. O pão partido nos lembra o Seu corpo esmagado. O cálice
nos lembra o Seu sangue derramado. Não nos aproximamos desta mesa porque somos
dignos ou perfeitos; nos aproximamos porque houve um Cordeiro.
O altar que era nosso recebeu
Outro. A morte que era nossa caiu inteiramente sobre Cristo. A vida eterna
conquistada por Ele foi concedida a nós. É por isso que celebramos! É por isso
que adoramos! É por isso que temos esperança!
Neste exato momento, vamos
participar da Ceia do Senhor. Este não é um ato de mera tradição litúrgica ou
um hábito religioso. Este é o memorial da graça; o anúncio profético da morte
de Cristo "até que Ele venha" (1Co 11:26).Ao examinarmos a nós mesmos
agora (1Co 11:28), não fazemos isso para descobrir se somos santos o
suficiente, mas para reconhecer a nossa total e absoluta dependência do
Cordeiro de Deus. Por isso, venha com o coração quebrantado. Confesse as suas
fraquezas ao Senhor. Abandone, do lado de fora, toda pretensão de mérito
próprio e contemple, mais uma vez, o Substituto que morreu em seu lugar.
O Deus que prometeu no Monte
Moriá — "Eu proverei o cordeiro" —, cumpriu cabalmente a Sua palavra
no Monte Calvário. Hoje, não há mais nenhum outro sacrifício a oferecer. Não há
mais barganhas a fazer. Há apenas um Cordeiro a adorar, uma salvação a
agradecer e uma mesa da qual participar com reverência, fé e profunda gratidão.
No Moriá, Isaque perguntou: 'Onde
está o cordeiro?'. No Jordão, João respondeu: 'Eis o Cordeiro de Deus'. E hoje,
ao nos aproximarmos da mesa do Senhor, a Igreja responde: 'Digno é o Cordeiro
que foi morto' (Ap 5.12).
Que, ao segurarmos o pão e o
cálice em nossas mãos, os nossos corações proclamem em uma só voz: "O
sacrifício era meu, mas o Cordeiro foi providenciado por Deus!”.
E que Cristo, em sua infinita graça,
nos abençoe sempre!
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