A GLÓRIA DE SER CHAMADO FILHO DE DEUS

 

A GLÓRIA DE SER CHAMADO FILHO DE DEUS

 

Texto Base: 1 João 3.1-2

¹ Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus. Por isso o mundo não nos conhece; porque não o conhece a ele. ² Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos.

 

Texto Complementar: Gálatas 4.4-7

⁴ Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, ⁵ Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. ⁶ E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. ⁷ Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo.

 

Introdução: Um Amor que Não Cabe em Nossas Categorias

"Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus..." (1Jo 3.1)

 

A primeira palavra do texto é um convite: "Vede!"

João não está apenas informando uma doutrina. Ele está chamando a igreja para contemplar uma maravilha.

O verbo transmite a ideia de parar e observar atentamente algo extraordinário.

Além disso, a expressão "quão grande amor" traduz uma expressão grega – ποταπὴν (potapēn) – que originalmente significava:

·         "De que país vem isso?"

·         "De onde procede algo tão incomum?"

Era usada para algo estranho, incomum, fora dos padrões conhecidos.

João olha para o amor de Deus e parece dizer:

·         "Esse amor não pertence a este mundo."

·         "Não existe nada semelhante entre os homens."

O amor de Deus não é apenas maior que o nosso. É de outra ordem. É de outra natureza. É um amor que transforma pecadores em filhos.

E então João faz uma declaração impressionante:

"Agora somos filhos de Deus."

Não apenas seremos. Não apenas quando chegarmos ao céu. Não apenas depois da glorificação. Agora. Nesta terça-feira. Em meio às lutas, às responsabilidades, às lágrimas e às batalhas da vida.

A pergunta é: O que significa ser filho de Deus?

 

I. A FILIAÇÃO É MAIS DO QUE UM TÍTULO: É UMA NOVA NATUREZA

"Somos chamados filhos de Deus; e de fato somos." (1Jo 3.1)

João poderia ter parado em:"Somos chamados filhos." Mas ele acrescenta: "E de fato somos."

Porque Deus não apenas muda o nome. Ele muda a natureza.

 

A riqueza dos termos bíblicos

Quando João fala sobre os filhos de Deus, utiliza a palavra grega: τέκνα (tekna)

Essa palavra refere-se aos filhos gerados, aqueles que compartilham da vida do pai.

Por isso, ao longo da carta, João fala repetidamente sobre nascer de Deus:

·         1 João 2.29

·         1 João 3.9

·         1 João 4.7

·         1 João 5.1

A filiação cristã não é apenas jurídica. Ela é também espiritual.

Houve um novo nascimento. Houve regeneração. Houve comunicação de vida.

 

Conexão com Gálatas

Paulo usa outro aspecto da mesma verdade. Em Gálatas 4.5 ele fala da "adoção de filhos" (υἱοθεσία (huiothesia)).

No contexto romano, a adoção concedia imediatamente: Nome da família, Direitos legais, Herança, Proteção. O adotado passava a ter exatamente os mesmos direitos do filho natural.

 

Aplicação: O Evangelho faz duas coisas simultaneamente:

·         Por meio da adoção:

·         Deus muda nossa posição.

 

Por meio do novo nascimento:

·         Deus muda nossa natureza.

·         Não somos apenas pessoas perdoadas.

·         Não somos apenas frequentadores de igreja.

·         Somos membros da família de Deus.

 

II. A FILIAÇÃO NOS CONDUZ À INTIMIDADE COM O PAI

Gálatas 4.6: "E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai."

Observe a lógica de Paulo.

Ele não diz: "Quando vocês se comportarem bem, serão filhos." Ele diz: "Porque vocês são filhos..."

A filiação vem antes. A intimidade nasce da filiação.

 

O significado de "Aba"

"Aba" era uma palavra aramaica usada no ambiente familiar. Expressava proximidade, confiança e afeição. Era a linguagem da casa.

A linguagem do relacionamento. A linguagem da mesa. A mesma palavra usada por Jesus no Getsêmani. (Marcos 14.36)

O Espírito produz em nós a mesma confiança filial que existia no coração do Filho perfeito.

 

Duas mentalidades

·         O escravo pergunta: "O que preciso fazer para não ser castigado?"

·         O filho pergunta: "Como posso agradar meu pai?"

O escravo vive sob ansiedade. O filho vive sob confiança.

O escravo trabalha para ser aceito. O filho serve porque já foi aceito.

 

Aplicação

Há muitos crentes que conhecem a doutrina da salvação, mas ainda vivem emocionalmente como órfãos. Sabem que Deus é Rei, mas esqueceram que Ele também é Pai. Oram pouco porque pensam que precisam merecer atenção. Vivem culpados porque acreditam que Deus está sempre distante.

Mas o Evangelho nos leva para dentro da casa. Temos livre acesso ao Pai.

 

III. A FILIAÇÃO PRODUZ SEMELHANÇA COM O PAI

João nunca separa identidade e prática. A grande preocupação da carta é combater uma espiritualidade sem transformação. Por isso ele afirma: Quem nasceu de Deus manifesta evidências dessa nova vida.

·         Não perfeição absoluta, mas direção.

·         Não ausência de luta, mas presença de transformação.

 

A lógica de João: Porque somos filhos:

·         Amamos os irmãos.

·         Buscamos a justiça.

·         Odiamos o pecado.

·         Andamos na luz.

 

Não fazemos essas coisas para nos tornarmos filhos. Fazemos porque somos filhos.

Muitas vezes alguém olha para uma criança e diz: "É a cara do pai." Não apenas pela aparência, mas pelos gestos, pela maneira de falar, pelos hábitos, pelos valores.

Da mesma forma, Deus deseja que Seu caráter seja visto em Seus filhos.

Quando o mundo observa a igreja, deve enxergar algo do Pai:

·         Sua graça.

·         Sua verdade.

·         Seu amor.

·         Sua santidade.

 

IV. A FILIAÇÃO APONTA PARA UMA GLÓRIA FUTURA

1 João 3.2: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser."

João mantém um equilíbrio extraordinário. Ele evita dois erros: Pensar apenas no futuro e pensar que já alcançamos tudo. Já somos filhos, mas ainda não somos tudo o que seremos.

Há uma tensão entre o "já" e o "ainda não".

 

A esperança cristã

João diz: "Quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele."

A salvação começou na regeneração, prossegue na santificação e culminará na glorificação.

O destino final do cristão não é apenas morar no céu. É ser plenamente conformado à imagem de Cristo.

Essa é a esperança da igreja.

 

CONCLUSÃO

João nos ensinou quatro verdades preciosas:

·         Somos filhos por uma obra sobrenatural de Deus.

·         Temos livre acesso ao Pai.

·         Devemos refletir o caráter do Pai.

·         Caminhamos para uma gloriosa transformação final.

E tudo isso começa com uma única palavra: Amor. ("Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai...")

Não foi nossa justiça, nosso mérito, nossa capacidade. Foi o amor do Pai.

 

Aplicação

·         Talvez haja alguém aqui que ama a Deus, mas tem vivido cansado.

·         Talvez alguém que se sente indigno.

·         Talvez alguém que serve, trabalha, congrega e até ora, mas carrega no coração uma sensação de distância.

A Palavra de Deus nos lembra nesta noite:

·         Você não é apenas um servo recebido na porta.

·         Você é um filho acolhido na mesa.

·         Você não é um estranho tolerado pela casa.

·         Você pertence à família.

·         Você tem um Pai.

·         E esse Pai conhece seu nome, suas lutas, suas lágrimas e suas necessidades.

Portanto, aproxime-se dEle, descanse nEle, confie nEle, porque, em Cristo, agora somos filhos de Deus.


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