QUANDO A PALAVRA PRODUZ QUEBRANTAMENTO

 


QUANDO A PALAVRA PRODUZ QUEBRANTAMENTO

 

Texto base: Esdras 9 e 10

 

INTRODUÇÃO

Na lição da Escola Bíblica Dominical vimos que Esdras era um sacerdote e escriba que dedicou sua vida ao estudo, à prática e ao ensino da Palavra de Deus.

A Bíblia diz: "Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar a Lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos" (Esdras 7.10).

Observe a sequência: ele estudava, praticava e ensinava. Antes de transmitir a Palavra aos outros, permitia que ela transformasse a sua própria vida.

É importante lembrar que, no tempo de Esdras, não existia uma Bíblia como temos hoje, com seus 66 livros reunidos em um único volume. O cânon bíblico ainda estava em formação, e os livros que já existiam eram separados, cada um em seu rolo específico. A Bíblia foi produzida ao longo de aproximadamente 1.500 anos por cerca de 40 autores inspirados por Deus.

Esdras dispunha, provavelmente, da Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), de alguns livros históricos (Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis), alguns profetas (Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Amós, Miqueias, Naum, Habacuque e Sofonias), livros poéticos e sapienciais (Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos e grande parte dos Salmos).

Mesmo sem possuir a quantidade de material que temos hoje, Esdras desenvolveu uma profunda paixão pelas Escrituras.

 

UMA CURIOSIDADE HISTÓRICA

Muitos conhecem Esdras como "escriba hábil na Lei do Senhor" (Esdras 7.6) e sacerdote da linhagem de Arão (Esdras 7.1-5), mas poucos sabem que ele foi uma das figuras mais importantes para a preservação da fé judaica após o exílio babilônico.

A tradição judaica antiga atribui a Esdras um papel fundamental na organização, preservação e transmissão dos textos sagrados para as gerações futuras. Alguns estudiosos acreditam que ele esteve envolvido no processo de compilação de registros históricos e na consolidação da vida espiritual da nação depois do retorno do cativeiro.

Independentemente da extensão exata dessa participação, uma coisa é certa: Deus usou Esdras para restaurar o povo por meio da Sua Palavra.

Talvez por isso ele nutrisse tamanho amor pelas Escrituras. Para Esdras, a Palavra de Deus não era apenas um livro religioso; era o instrumento divino para reconstruir uma nação destruída pelo pecado.

Mas existe algo ainda mais impressionante. O maior momento do ministério de Esdras não aconteceu quando ele ensinou a Palavra, nem quando ele a estudou, e nem quando ele a copiou. A cena mais marcante de sua vida ocorreu quando a Palavra que ele ensinava atingiu profundamente o seu próprio coração e o levou ao quebrantamento diante de Deus por causa do pecado do povo.

É exatamente isso que encontramos nos capítulos 9 e 10 de Esdras. Ali aprendemos que o verdadeiro contato com a Palavra de Deus não produz apenas conhecimento; produz arrependimento, transformação e quebrantamento.

O maior momento de Esdras não foi quando ele ensinou a Palavra; foi quando a Palavra o quebrou.

 

1. A PALAVRA REVELA AQUILO QUE NINGUÉM QUER ENXERGAR

Esdras 9:1,2 –  1 Acabadas, pois, estas coisas, chegaram-se a mim os príncipes, dizendo: O povo de Israel, os sacerdotes e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, seguindo as abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos egípcios, e dos amorreus. ² Porque tomaram das suas filhas para si e para seus filhos, e assim se misturou a linhagem santa com os povos dessas terras; e até os príncipes e magistrados foram os primeiros nesta transgressão.

O problema não era desconhecido. Os líderes vieram informar a Esdras que o povo, os sacerdotes e os levitas estavam se misturando com os povos pagãos da terra, desobedecendo claramente aos mandamentos de Deus.

O mais grave é que aquilo já estava acontecendo há algum tempo.

Existe uma tendência humana de ignorar aquilo que nos confronta. Muitas vezes enxergamos facilmente os erros dos outros, mas temos dificuldade de reconhecer os nossos próprios pecados. Aquilo que nos beneficia, agrada ou parece conveniente acaba sendo justificado pelo coração.

Foi exatamente o que aconteceu em Israel. O povo havia aprendido a conviver com uma situação que Deus havia condenado. O pecado já não causava indignação; havia se tornado algo comum.

Mas quando a Palavra ocupa seu lugar de autoridade, ela ilumina áreas que preferíamos manter escondidas. Ela revela aquilo que a consciência tentou silenciar, aquilo que a cultura procurou normalizar e aquilo que o coração insistiu em justificar.

Esdras não avaliou a situação pela opinião popular nem pelas circunstâncias do momento. Ele a examinou à luz daquilo que Deus havia dito. O problema não era o casamento com estrangeiros por uma questão étnica. O problema era a influência espiritual e religiosa desses povos, que levava Israel à idolatria e ao abandono da aliança com Deus.

O quebrantamento começa quando deixamos de fugir da verdade e permitimos que a Palavra revele quem realmente somos.

Todos nós temos áreas da vida que gostaríamos de manter fora da luz. Pecados que minimizamos, atitudes que justificamos e hábitos que tentamos defender.

Mas a Palavra de Deus funciona como um espelho. Ela mostra não o que desejamos ver, mas o que precisamos ver.

Ninguém gosta de ser confrontado, mas ninguém pode ser transformado sem primeiro ser confrontado.

 

2. A PALAVRA DESTRÓI AS ILUSÕES QUE CRIAMOS SOBRE NÓS MESMOS

Esdras 9.6 – “⁶ E disse: Meu Deus! Estou confuso e envergonhado, para levantar a ti a minha face, meu Deus; porque as nossas iniquidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça, e a nossa culpa tem crescido até aos céus.

Esdras era um homem piedoso, mas diante da santidade de Deus ele não adotou a postura de quem observa o pecado dos outros à distância. Sua oração é marcada por identificação: ‘as nossas iniquidades’. A Palavra destruiu a ilusão de superioridade espiritual. Ela o fez perceber que, mesmo sendo fiel, ele fazia parte de um povo que precisava desesperadamente da misericórdia de Deus.

Sua reação diante da situação de pecado do povo foi impressionante. Ele rasga suas vestes, arranca cabelos da cabeça e da barba e permanece assentado, atônito. Mais tarde, ele se prostra diante de Deus em uma das orações mais emocionantes do Antigo Testamento.

Observe algo interessante: Esdras não havia cometido pessoalmente aquele pecado, mas sentiu profundamente a condição espiritual do povo.

Vivemos numa geração que deseja transformação sem arrependimento, restauração sem confissão e bênçãos sem quebrantamento.

Porém, antes de curar, Deus frequentemente nos faz sentir a gravidade da enfermidade.

A Palavra não é um anestésico; ela é um diagnóstico. Antes de produzir alegria, ela muitas vezes produz tristeza segundo Deus.

Hoje em dia é muito comum as pessoas quererem ouvir mensagens que tragam conforto, mas evitam mensagens que confrontam. Contudo, a dor e o incômodo produzidos pelo confronto de nossas ações com a Palavra não visa destruir o pecador; visa destruir o pecado.

O coração que nunca se entristece diante de Deus provavelmente já se acostumou demais com a própria condição espiritual.

 

3. O VERDADEIRO QUEBRANTAMENTO PRODUZ AÇÕES CONCRETAS

Esdras 10:3 – “Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus de que despediremos todas as mulheres, e os que delas são nascidos, conforme ao conselho do meu senhor, e dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se conforme a lei.”

Esdras não ficou apenas chorando. Seu quebrantamento contagia o povo. A Bíblia diz que uma grande multidão se reuniu ao redor dele e também chorava amargamente. Então surge uma disposição coletiva para corrigir aquilo que estava errado.

O arrependimento bíblico sempre produz frutos visíveis.

Não basta reconhecer o erro, lamentar o erro, confessar o erro. É necessário abandonar o erro. E essa é a parte mais difícil.  Aqueles homens de Judá precisaram despedir suas esposas estrangeiras, com as quais já haviam constituído família. Alguns já tinham inclusive filhos, e esses também foram despedidos juntamente com suas mães. Essa medida ocorreu em uma situação específica da história da aliança de Israel e estava ligada à preservação da identidade espiritual do povo de Deus. O princípio permanente para nós não é o repúdio ao cônjuge, mas a disposição de abandonar tudo aquilo que nos afasta da vontade de Deus.

Abandonar o erro às vezes é doloroso, mas necessário.

João Batista pregou: "Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento."

A emoção do quebrantamento é importante, mas ela não é o objetivo final. O objetivo é a transformação.

Há pessoas que choram durante um culto e permanecem as mesmas durante a semana. Há outras que talvez nem derramem lágrimas, mas saem decididas a obedecer a Deus.

 

O sinal mais evidente de um coração quebrantado não é a intensidade da emoção, mas a profundidade da mudança.

 

CONCLUSÃO

Esdras nos ensina que a Palavra de Deus produz três efeitos poderosos:

1.       Ela revela o pecado.

2.       Ela produz quebrantamento.

3.      Ela gera transformação.

O grande perigo da vida cristã não é ouvir pouco a Palavra, mas sim ouvir muito  e ser pouco influenciado ou afetado por ela.

Esdras conhecia profundamente as Escrituras, mas não permitiu que o conhecimento substituísse a sensibilidade espiritual. Antes, ele se submeteu à Palavra, permitindo que ela transformasse sua vida e, por meio dele, a vida do povo.

Quanto mais Esdras conhecia a Palavra, mais quebrantado se tornava diante dela.

O verdadeiro avivamento começa quando a Palavra deixa de ser apenas informação para se tornar transformação.

Porque o maior momento de Esdras não foi quando ele ensinou a Palavra, mas sim quando a Palavra o quebrou.

Que Deus nos abençoe e nos ensine de tal forma que, todos os dias, a sua Palavra nos quebre novamente, para que o Grande Oleiro possa nos moldar a cada dia conforme o seu bem querer.

E que Cristo, em sua infinita graça, nos abençoe sempre. 


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