ALGUÉM ME TOCOU

 


ALGUÉM ME TOCOU

 

 

Texto Base: Marcos 5:25-34 e Lucas 8:43-48

Texto chave: Lucas 8.46

 

 

“E disse Jesus: Alguém me tocou, porque bem conheci que de mim saiu poder.”

 

 

INTRODUÇÃO

 

Jesus está passando próximo a Cafarnaum. Ele estava vindo da cidade de Gadara, uma cidade Helenística de Decápolis, situada a sudoeste do Mar da Galileia. Jesus havia libertado ali um homem, conhecido como o “endemoninhado gadareno”, e em seguida atravessou o lago (mar), de volta para a Galileia. Ao chegar à margem, uma grande multidão o esperava. Entre eles estava Jairo, o chefe da Sinagoga de Cafarnaum, que pede a intervenção de Jesus a respeito de sua filha, que estava muito doente. E Jesus começa a se dirigir à casa de Jairo.

 

A cena é intensa. Uma multidão cerca Jesus. O verbo usado indica que o povo o apertava, comprimia, empurrava. Havia barulho, expectativa, curiosidade, emoção.

 

As pessoas estavam se esforçando de todas as formas para estarem perto, para estarem ao redor, para estarem junto de Jesus. Ali, muitas tocavam nele, mas apenas uma pessoa ouviu Jesus dizer: “Alguém me tocou.”

 

E é sobre isso que eu quero conversar com você um pouco nesta noite. O que fez com que aquela mulher se destacasse no meio da multidão? O que nós podemos aprender com ela?

 

 

I. UMA VIDA QUE PRECISAVA DE RESTAURAÇÃO (Lucas 8:43)

 

“E uma mulher, que tinha um fluxo de sangue, havia doze anos, e gastara com os médicos todos os seus bens, e por nenhum pudera ser curada,

 

O Evangelista faz questão de detalhar a condição daquela mulher. Ela vivia

 

 

1. um sofrimento prolongado. Eram 12 anos de uma enfermidade terrível.

 

Enquanto a filha de Jairo, a menina que Jesus estava indo curar, tinha 12 anos de vida, aquela mulher tinha 12 anos de sofrimento. O mesmo número que simbolizava vida e alegria na casa de Jairo, simbolizava dor e sofrimento na vida daquela mulher.

 

Há pessoas que carregam dores antigas: feridas emocionais, culpas do passado, frustrações acumuladas, pecados recorrentes. Aquela mulher não sofria apenas fisicamente — sofria social e espiritualmente. Pela Lei, era considerada impura. Isso significava isolamento, exclusão, vergonha. Era uma mulher doente no corpo, ferida na alma, isolada da sociedade, limitada na adoração. Era uma mulher que precisava de restauração.

 

 

2. Uma busca frustrada

 

O versículo diz que ela já havia gastado todos os seus bens com os médicos. Aquela mulher não ficou sofrendo parada, inerte, esperando o resultado da sua enfermidade durante aqueles doze anos. Ela tentou, ela investiu, ela buscou soluções, ela esgotou todos os seus recursos. Mas a sua busca foi frustrada.

 

Quantas vezes as pessoas tentam resolver sozinhas, compensar com a religião, esconder com a aparência, distrair-se com ocupações, etc. Mas continuam sangrando por dentro, e a cada nova tentativa, uma nova frustração.

 

Aquela multidão acompanhava e apertava Jesus. Muitos até tocavam nele, mas os seus corações não haviam entendido. Talvez, no meio daquela multidão, existissem muitos precisando também de uma cura sobrenatural, de um milagre de Jesus, mas assim como os bons religiosos, eram pessoas que confiavam no fato de estar caminhando com Jesus, e não unicamente no próprio Jesus, com quem caminhavam.

 

A multidão representa os religiosos. A mulher representa os necessitados conscientes. Somente quem reconhece a sua real condição toca no Salvador como aquela mulher tocou. Restauração começa quando reconhecemos nossa real condição.

 

 

II. UMA FÉ QUE ROMPE OBSTÁCULOS (Mc 5.27)

 

A narrativa de Marcos acrescenta um detalhe importante. Marcos 5.27 diz que aquela mulher “Tendo ouvido a fama de Jesus…” foi até Ele.

 

Aqui começa a transformação. Romanos 10.17 diz que “a fé vem pelo ouvir...”

 

 

1. A fé nasce pelo ouvir

 

Aquela mulher ouviu falar de Jesus. Ela estava atenta, ela estava em busca de uma solução para a sua dor, e ela ouve falar daquele que poderia resolver a sua enfermidade.

 

A fé não nasce da emoção, nem pelo desespero. A fé não nasce nas buscas insanas por milagres e sinais. A fé nasce da Palavra!

 

A mulher ouviu relatos, ouviu testemunhos, ouviu sobre os milagres e, após ouvir, ela decidiu crer.

 

 

2. A fé se torna ação (Marcos 5.28)

 

“Se eu apenas tocar nas suas vestes, sararei”

 

Aquela mulher não pediu uma audiência com Jesus. Ela não exigiu atenção, ela não fez barulho, ela não quis palco. Ela apenas queria tocar. Ela tinha certeza de que bastava um toque na orla das vestes de Jesus, para que ela fosse sarada. Ela conhecia a Palavra, sua fé era fundamentada.

 

Malaquias 4.2 diz: "Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o Sol da Justiça, e a cura trará nas suas asas". a palavra usada para "asas" é Kanaph (כָּנָף). Esta palavra tem um significado duplo: Pode significar as asas de um pássaro ou as bordas ou cantos de uma veste.

 

De acordo com a religião judaica, todo judeu deveria colocar “franjas” nos quatro cantos do manto, para se lembrar dos mandamentos de Deus (Números 15.38,39). Nos tempos de Jesus essas franjas nos cantos do manto eram o símbolo da autoridade espiritual e da obediência à Lei, e muitos judeus interpretavam que haveria poder de cura nas franjas das orlas do manto do Messias.

 

Aquela mulher não tocou por acaso na orla do manto de Jesus. Ela conhecia a Palavra. Ela conhecia a profecia. Ela sabia que Ele, Jesus, era o Messias e que Ele a curaria, se ela o tocasse.

 

Então ela rompe todos os obstáculos. Atravessa a multidão, mesmo estando cerimonialmente impura. Ela supera o medo enfrenta a multidão. Ela ignora a vergonha e vence o risco de ser exposta.

A fé verdadeira é intencional.

 

Existe uma grande diferença entre esbarrar em Jesus e tocá-lo deliberadamente.

 

Infelizmente há muitos esbarram na presença de Deus. Se espremem, se empurram, buscam melhores lugares, caminham juntos, se admiram, se espantam. Mas nem todos rompem pela fé.

 

Não basta simplesmente esbarrar em Jesus. É preciso tocá-lo com fé intencional e consciente.

 

 

III. O TOQUE QUE MOVE O CÉU (Marcos 5.29-30)

 

“E logo se lhe estancou a hemorragia…”

 

No exato momento que aquela mulher toca a orla das vestes do Messias, a sua enfermidade é sarada. A profecia se cumpre. O poder se manifesta, a glória se revela.

 

A fé intencional e consciente move o céu a nosso favor. Quando o toque foi verdadeiro, o milagre aconteceu.

 

Mas aqui está o ponto central. Imediatamente após realizar o milagre de curar aquela mulher, Jesus pergunta:

“quem tocou em minhas vestes?” E os discípulos ficam sem entender, e dizem: “Senhor, a multidão te aperta”, ou seja, “todo mundo está te tocando”.

 

Mas o que eles não entendiam ainda é que nem todo toque libera poder. Nem toda proximidade é intimidade. Nem toda religiosidade é fé.

 

A multidão tocava por curiosidade, a mulher tocou por necessidade. A multidão estava perto fisicamente, mas a mulher estava conectada espiritualmente. O toque das outras pessoas não moveu o céu nem chamou a atenção de Jesus, mas o toque daquela mulher provocou o milagre. O texto diz que Jesus percebeu que dele “saíra poder”.

 

O poder não saiu por acaso, por acidente, ou por ação religiosa. O poder saiu em resposta à fé

 

 

IV. RESTAURAÇÃO NÃO É APENAS CURA, É EXPOSIÇÃO DA GRAÇA (vv. 31–33)

 

Assim como aquela mulher chegou silenciosamente e tocou nas vestes de Jesus, ao ser curada, ela poderia sair da mesma forma, silenciosamente, e ir embora curada.

 

Da mesma forma, Jesus, que já sabia o que havia acontecido, poderia ter seguido seu caminho, e ido urgentemente ao encontro da filha de Jairo. Mas Jesus para tudo. Ele interrompe sua caminhada e volta toda a sua atenção para aquele momento. Por quê?

 

Porque o propósito de Jesus não é apenas curar, não é apenas fazer milagres, não é apenas resolver problemas. O propósito de Jesus é restaurar pessoas. Aquela mulher havia sido curada do mal que afligia seu corpo, mas ela ainda não havia recebido o milagre mais importante.

 

Jesus faz uma pergunta para apresentar aquela mulher à multidão: “quem me tocou?” Percebendo o que estava acontecendo, a mulher se manifesta, temendo e tremendo (Mc 5.33).

 

Ela vem tremendo. Ela confessa toda a verdade. Ela havia quebrado uma regra. Ela estava impura no meio da multidão. Ela precisa confessar toda a verdade.

 

E Jesus a expõe, não para humilhar, mas para libertar completamente. Cristo queria que aquela mulher saísse da sombra.

 

Quantas pessoas querem bênção sem relacionamento, querem milagre sem compromisso, querem cura sem transformação?

 

 

V. TRANSFORMAÇÃO COMPLETA: DE DOENTE A FILHA (Mc 5.34)

 

“Filha, a tua fé te salvou…”

 

Essa é a parte mais poderosa. Jesus não a chama de “mulher”, simplesmente, e também não a rotula, como era o costume, de impura, doente, pecadora... Ele a chama de Filha!

 

Restauração é tratar a ferida. Transformação é restaurar a identidade.

 

Aquela mulher chegou impura e saiu filha. Ela chegou escondida e saiu erguida, restaurada publicamente. Ela chegou sangrando e saiu em paz.

 

Observe que Jesus diz: “Vai em paz.” A paz que ela não tinha há doze anos.

 

O sangue daquela mulher parou porque outro sangue seria derramado. Sua hemorragia foi totalmente estancada porque havia outro sangue a jorrar, por ela, por mim e por você, o sangue de Cristo, que é a base da nossa restauração.

 

Como está escrito em Evangelho de Mateus 26:28: “Porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança…”

 

Aquela mulher tocou nas vestes de Jesus. Nós tocamos, pela fé, na obra consumada da cruz.

 

 

CONCLUSÃO - MULTIDÃO OU TOQUE?

 

Tal como era naquele dia, por volta do ano 32, perto de Cafarnaum, ainda hoje há dois grupos de pessoas. AS que apenas apertam e tocam e apertam Jesus, e os que o tocam pela fé.

 

Você pode estar na igreja, cantar os hinos, orar, ler a bíblia, participar da Ceia e continuar sangrando por dentro.

 

Ou você pode decidir: “Hoje eu vou tocar.”

 

Não é o pão em si, não é o cálice em si. É a fé que se conecta ao Cristo vivo.

 

Restauração é cessar o sangramento. Transformação é receber nova identidade.

 

“Assim como aquela mulher disse: ‘Se eu apenas tocar a orla de sua veste…’, hoje você pode dizer: ‘Se eu apenas tocar pela fé na cruz de Cristo, algo vai mudar dentro de mim.’”

 

Essa noite não é noite de multidão. É noite de toque. É noite de restauração. É noite de transformação.

 

Há uma multidão aqui esta noite. Talvez não uma multidão física, mas uma multidão de histórias, uma multidão de dores, uma multidão de lutas silenciosas.

 

Talvez haja aqui pessoas sangrando emocionalmente há anos, pessoas que continuam servindo, mas estão exaustas, pessoas que perderam a alegria da salvação, pessoas que estão na igreja… mas longe no coração.

 

Aquela mulher ficou doze anos assim: frequentando ambientes, vivendo ao redor das pessoas. Mas carregando uma dor invisível.

 

Hoje o Espírito Santo está perguntando a essa igreja: “Quem vai me tocar?”. Não é quem vai cantar mais alto, quem vai levantar a mão, quem vai participar da liturgia.

 

Mas: Quem vai tocar com fé?

 

Você pode estar na Ceia e não tocar. Você pode pegar o pão e continuar sangrando. Você pode beber do cálice e continuar preso à culpa.

 

Mas também pode acontecer algo diferente hoje.

 

Você pode dizer dentro da sua alma: Chega de sangrar escondido. Chega de religiosidade. Chega de apenas apertar Jesus. Hoje eu vou tocar.

 

Ela tocou nas vestes, nós tocamos na cruz. O sangue dela fluía para a morte, o sangue de Cristo fluiu para nos dar vida.

 

Nesta Ceia não celebramos um símbolo vazio, celebramos o preço da nossa restauração.

 

Talvez você possa pensar: “Pastor, o meu caso já dura anos”, “o meu pecado é repetido”, “a minha culpa é pesada”, “o meu casamento está sangrando”, “a minha fé está fraca.”

 

Mas o mesmo Jesus que parou naquela rua de Cafarnaum está passando aqui hoje, e Ele continua perguntando:

“Quem me tocou?”

 

Se há algo sangrando dentro de você, se há pecado não confessado, se há frieza espiritual, se há culpa, se há cansaço, se há vergonha...

 

Hoje não é dia de sair escondido. Aquela mulher poderia ter fugido, mas quando Jesus a chamou, ela veio tremendo.

 

Talvez você esteja tremendo por dentro, mas venha mesmo assim. Não fisicamente apenas, mas em fé.

 

Então declare com autoridade:

 

Hoje o sangramento vai parar.

Hoje a culpa perde a força.

Hoje a vergonha perde o domínio.

Hoje cadeias estão sendo quebradas.

Hoje identidades estão sendo restauradas.

 

Você não sairá daqui apenas como alguém que participou da Ceia. Você sairá daqui como filho. Como filha.

Restaurado. Transformado. Em paz.

 

Não seja parte da multidão que aperta. Seja a fé que toca.

 

E que Cristo, em sua infinita graça, nos abençoe sempre!

 


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